A VIRAGEM
Na imprensa da especialidade, semanas atrás, acedemos à gostosa informação do encerramento do ciclo durante o qual a SIC esteve de costas voltadas para estas coisas dos toiros.
Em carta a Bacatum dissemos um dia não termos nascido nem vivido no Ribatejo ou Alentejo, frequentado bastidores ou sido visita de tertúlias, donde o nosso distanciamento dos locais onde, naturalmente, se está em cima do acontecimento e as novidades chegam depressa e em catadupa.
Adaptando estes dizeres ao caso concreto dir-se-á que a chegada às nossas mãos dos dois hebdomadários habituais teve lugar durante a tarde do dia da corrida e assim soubemos da boa nova da transmissão televisiva, pouco antes do seu início.
Por toda a Península a Tauromaquia vive hoje a orfandade do injusto distanciamento dos grandes órgãos da imprensa escrita e falada. Neste último particular, temos o chocante caso da mudança de posição da Rádio Renascença, ainda não há muitos anos, firme e profícuo baluarte de apoio e divulgação da Festa.
Pior do que isso, noutra vertente, de quando em quando, ou chega a hora do recurso ao camartelo, como sucedeu em Cascais, cuja inauguração fôra já coetânea da nossa então embrionária aficion, ou os recintos permanecem mas as portas não se abrem, como acontece, por exemplo, com a praça de Estremoz.
Viajando pelo passado, recordamos Algés, Espinho, Abrantes e Viseu, esta, terra natal da dinastia Casimiro de Almeida.
Por fora do nosso tempo, antecedendo-o, acode-nos à lembrança, Porto, Coimbra, Aveiro, Vista Alegre, Vila Nova de Gaia e Matosinhos.
Noutra oportunidade aludimos à errada perspectiva, por parte das televisões, da Tauromaquia como coisa herdada do passado, distanciada dos homens e das mulheres de hoje e a ser encarada e tratada em conformidade com aquela maneira de ser.
O povo diz “não haver bem que sempre dure, nem mal que não acabe”.
Por isso, o panorama, em termos informativos, acima descrito, modificou-se, por não ser possível continuar a ignorar ou a subestimar o impacto público do segundo espectáculo de massas mais importante intra-muros.
Há anos, a TVI declarou guerra à televisão pública no tocante a transmissões de touradas – a guerra das audiências – desse modo lhe questionando o correspondente monopólio de facto.
À RTP chegou, entretanto, um interessante e pedagógico programa sazonal e semanal.
Entrou agora a SIC naquele confronto, o que mereceu o aplauso até dos aficionados amantes da paz…
Tudo tem a ver, afinal, com a economia de mercado e a competição, princípios ou características do sistema reinante da economia capitalista.
A esta luz, a luta dos três gigantes deverá ter como ponto de partida, qualitativamente, espectáculos previsivelmente de sucesso, em função da composição dos cartéis; quanto à quantidade, relevando o passado para fecundar o futuro, uma vez feita aquela primeira clivagem, voltemos às “reportagens do exterior”, corrida-sim, corrida-não, desse modo repristinando o inesquecível legado de Manuel dos Santos, a sua valia como empresário taurino avançado para o seu tempo.