A PROMESSA E O ARRANQUE
Em ano de comemoração das bodas de diamante dos forcados de Vila Franca de Xira e num festival por eles organizado, levado a cabo e integrado no ciclo das comemorações dum tal evento, justifica-se plenamente que esta crónica se centre no comportamento em praça do grupo aniversariante, rico de história e de tradição, contemporâneo que é do lançamento das festas do Colete Encarnado, orgulho dos Vila-franquenses, em geral, dos aficionados, em particular.
O mote havia sido já dado pelos homenageados durante a pretérita feira de Outubro, em que estiveram à altura dos seus muitos e valiosos pergaminhos, mormente no confronto com os Miuras, assim prometendo uma profícua temporada festiva. Ora, a presente época, festival dito, não poderia ter arrancado de melhor forma com as cinco intervenções concretizadas à primeira tentativa, depois do aperitivo das cortesias, de que participaram quatro antigos cabos (Jesus Lourenço, José Carlos de Matos, João Dotti e Jorge Faria) e tantos outros elementos que, ao longo dos anos, vestiram e honraram quanto baste a jaqueta do prestimoso agrupamento.
A imobilização do toiro ao primeiro intento é natural aspiração, individual e colectiva, de quem transpõe as tábuas para tal fim. Mas se isso for realizado por um acervo de homens maioritariamente já retirados das lides e de idades não inferiores a 45 anos, então a proeza ganha outra dimensão e merece ser saudada dum modo muito especial.
Assim é que Jorge Faria, forcado de eleição, homem dos duelos com os terríveis Infantes, passeou pela arena toda a sua altivez, não se deixando intimidar pela mais leve ameaça de carga do adversário a quando da preparação para a pega, bem como a sua classe e experiência, aguentando barbaridades, não na tentativa propriamente dita, mas antes dela, quando o hastado demorou a decidir-se; Vasco Dotti, distinto cabo actual, consumou com a segurança e a técnica habituais, filhas dos muitos anos que leva já de dedicação ao seu grupo de sempre; José Beleza foi o terceiro solista, creditando-se-lhe o longo período de jejum que percorreu e que, quanto maior, mais evidencia a disponibilidade e a prestação de quem regressa, ainda que fortuitamente; a Carlos Teles, “Caló”, forcado de época, coube a representação subsequente, já a caminho do final, estando brilhante, como habitualmente, com a sua raça cale a vir ao de cima no preciso instante em que as vicissitudes da pega o deixaram de novo sozinho com o oponente e antes que os colegas pudessem voltar a tentar e lograr, agora, sim, a definitiva imobilização daquele; encerrou praça João Costa, “Platanito”, que vimos retirar-se na “sua” Palha Blanco num toiro lidado por João Salgueiro e em que o cavalo Isco sofreu grave percalço; o veterano forcado, 54 anos vividos, esteve enorme, aguentando a pronta arrancada do cornúpeto, logo que o grupo se formou, assim lhe dando todas as vantagens, para se embarbelar seguro, tal como a ostra se agarra ao casco do navio.
A cavalo sobressaíram Duarte Pinto, ainda que beneficiado pelo aleatório de segundo sorteio ditado pelo adiamento ocorrido e pela reformulação do cartel, desenvolto na condução das montadas e na lide proporcionada ao antagonista e Diego Ventura, este, em dois ferros em que consentiu até ao limite.
Ruiz Miguel e Vítor Mendes, já retirados, toureiros das ganadarias duras e que, por tal motivo, comeram o pão taurino que o diabo amassou, valorizaram, com a sua presença e actuação, o nível do espectáculo.
O de Cádiz, por sinal alternativado em Balcelona, nos finais dos anos 60, com o toiro Panadero, de Pinto Barreiros, lanceou à verónica, ganhando terreno, para mandar na faena contra um adversário de cabeça a meia altura e fraco de remos, simulando a receber; o de Marinhais, filho adoptivo de Vila Franca, com um novilho de características semelhantes, deliciou os seus admiradores, matando-lhes saudades no tércio intermédio, preenchido com dois bons pares, em que atacou e abriu o apetite para o reaparecimento, por uma tarde, na Ilha Terceira, lá para o Verão, em corrida formal, vestido de luces, em que terá que ser naturalmente outra a exigência a fazer-se quanto à matéria-prima a defrontar.