O VANTAGISMO e os DIREITOS DOS
ANIMAIS (Conclusão)
"Por outro lado, tourear é aguentar e mandar e só
se pode tourear quando os dois elementos em factor - o homem
e o animal - encontrem-se próximo ou distantes, se mantêm
ligados.
O primeiro elo dessa ligação e o princípio
do aguente é o cite. O toiro atenta no conjunto - cavaleiro-cavalo
- que permanece em atitude de resoluta expectativa, fixa-se
nele e, preso dele, arranca para atacar. O cavaleiro, sem nunca
usar de velocidade, parte então, sempre a mostrar-se,
a aguentar e, seguro da investida, passa a comandar-lhe a direcção
e, até, a moldar-lhe o ritmo e a intensidade.
Contestar-se-à: mas se o touro não for susceptível
de se arrancar de largo e, fazendo-o somente de perto, não
der tempo ao cavalo para vencer a inércia e, portanto,
para sair em boas condições?
Restará, em tais circunstâncias, praticar o cite
em movimento. O cavaleiro tomará a iniciativa de partir
para o inimigo, com lentidão, utilizando qualquer ar
de escola, adequado, progredirá, de igual modo, a mostrar-se
bem e em atitude expectante e transitará ao galope assim
que a investida se verifique.
E se o touro for muito quedado?
Tudo se passa de maneira idêntica.
O ginete continuará a adoptar o cite em movimento, nas
condições referidas, prolongando-o até
quase ao momento de se quartear e cravará ou sairá
em falso.
Uma coisa é certa: não pode ligar-se ao touro,
contraria essa ligação ou quebra-a e não
está a tourear, o cavaleiro que toma a iniciativa de
ataque e, não citando - por qualquer dos processos indicados
- se dispara vertiginosamente em viagem recta ou oblíqua.
O que, sem dúvida, pode, assim, é surpreender
o touro, aparecendo-lhe em muito curto para lhe provocar uma
investida inconsciente e falsear os mais elementares princípios
do toureio, trocando o difícil e arriscado pelo fácil
e cómodo.
E, quanto a velocidade
, ela também tem o seu lugar
na arte de lidar touros. Serve apenas para fugir , em caso de
apuro, nunca para tourear com lisura".
A transcrição ora concluída fez-se a pensar
nas estrondosas actuações de Joaquim Bastinhas
em duas corridas da Rádio realizadas no Campo Pequeno
em anos consecutivos, com toiros de Brito Pais, em que citou
de praça a praça e assim pôde obter e controlar
as investidas dos adversários e de António Ribeiro
Telles, cujo classicismo, na acepção de respeito
pelo Passado e pela Verdade, se não esgota no culto do
uso total da indumentária de cavaleiro tauromáquico,
enquanto actua e na elegância e correcção
da sua monte, especialista nas sortes de poder-a-poder que também
é, apodicticamente quando as características dos
oponentes o propiciam.