Ela aí está, a temporada taurina de 2006!
Na tarde do passado dia 2 deste Abril, “de águas mil” e que, por isso, vai deixando sem realização alguns dos espectáculos anunciados, começámos a reduzir o défice de acompanhamento de eventos dessa natureza que qualquer defeso necessariamente comporta para todos quantos se não dispõem a atravessar o Atlântico a fim de acompanhar as temporadas do outro lado do Mundo, deslocando-nos à simpática e até então, para nós, ignota localidade de Chã de Baixo, nas imediações da velha urbe escalabitana, onde se anunciava – e teve lugar – um festival taurino de iniciativa comunitária, com fins beneficentes.
A praça estava praticamente cheia, os novilhos eram de Vila Galé, Manuel Jacinto foi o director de serviço e mereceu nota elevada e o cartel incluía também os cavaleiros Joaquim Bastinhas, Luís Rouxinol, Ana Batista, Tiago Pamplona, Jason Palma e Marcos Tenório e ainda os forcados amadores do Ribatejo e da Chamusca, capitaneados, respectivamente, por Joaquim José Penetra e Nuno Marques.
Nas bancadas e na teia viam-se caras conhecidas de antigos toureiros e forcados, ganadeiros e empresários, com a mesma fome de vivência desta nossa paixão comum…
Quanto ao nível artístico, foi o festival prejudicado pelo mau jogo dado pela maioria das reses, mansas e, consequentemente, com grande apetite por terrenos de tábuas, a que se acolheram.
Joaquim Bastinhas é um caso clamoroso de popularidade merecida, começando e terminando as muitas temporadas que leva já de alternativa sempre da mesma forma, a saber, com uma alegria contagiante e uma entrega exemplar, denotando um elevado sentido de profissionalismo e grande respeito pelas multidões que o ovacionam.
No caso concreto, o ginete alentejano, ante um adversário que cedo viajou para tábuas, onde voltava com frequência, animal de meias arrancadas e que não reagiu à cravagem dos ferros, apontou-os de forma colocada e concluiu com dois pares de bandarilhas que entusiasmaram o conclave, o primeiro, no corredor, o segundo, “de compadres”, porque o antagonista acudiu na reunião.
O grupo do Ribatejo, com três intervenções ao primeiro intento, pegou por intermédio de Francisco Mansidão, em estreia absoluta, tal como o primeiro ajuda, Manuel Freitas.
Volta para cavaleiro e forcado, indo este ainda aos médios.
Luís Rouxinol foi o intérprete que se seguiu, por imperativos de antiguidade, cabendo-lhe em sorte um adversário preto listão de pelagem, tal como o anterior, que saiu com gás e rematou num burladero, sendo um dos dois novilhos que se deixaram tourear.
O de Pegões, após o sucesso alcançado na temporada anterior, sobressaiu na primeira parte da ferragem curta, de excelente nível e, nos adornos, numa sorte de violino e num ferro de palmo cravado a sesgo, ambos à primeira entrada.
Mário Duarte, pelo grupo da Chamusca, concretizou à primeira tentativa, com o novilho reunindo a ensarilhar e o forcado a embarbelar-se, primeiro, para terminar à córnea.
Cavaleiro e forcado deram volta ao redondel e ainda foram aos médios.
Ana Batista lidou o terceiro da ordem, com direito a saudação inicial e especial por, finalmente, utilizar cavalos sem gamarra, assim fazendo jus ao estatuto de magnífico calção de que fundamentadamente disfruta.
Quanto ao mais, a de Salvaterra luziu-se na primeira parte da sua actuação, enquanto teve adversário, bregando e cravando com qualidade. Concluiu com um pavio, á primeira tentativa, saindo de largo, a contra-querença, com o novilho posicionado nos médios.
Pelos amadores do Ribatejo foi solista João Machacaz, com o adversário a empurrar até e contra a trincheira, com violência, tendo-se lesionado o primeiro ajuda, Paulo Teles, de pronto recomposto.
Volta à arena e saída aos médios premiaram o labor dos dois artistas.
Negro listão, como alguns dos irmãos de camada, era o quarto da ordem, lidado pelo jovem açoriano Tiago Pamplona, a quem credito a circunstância da utilização de montadas que lhe não pertencem, logo, por definição, com ginete e corcel a não se conhecerem nem, consequentemente, a confiarem-se reciprocamente…
Ainda assim, realce relativo para a colocação do primeiro ferro e também do sexto, este, já da série dos curtos, de dentro para fora e com o antagonista a acudir e a empregar-se no embroque.
Pelo agrupamento da Chamusca adiantou-se, então, para a pega, João Luz, que consumou da segunda vez, bem ajudado, à barbela e, depois, à córnea.
Cavaleiro e forcado foram distinguidos com volta ao ruedo e saída aos médios.
Jason Palma, tal como o seu antecessor, representava a expectativa que é sempre de associar a quem se vê trabalhar pela primeira vez, como no nosso caso.
Frente a um oponente, outrossim preto listão, que privilegiou as tábuas como local de permanência pretendida e realizada, o cavaleiro distinguiu-se pela colocação da ferragem comprida e também no quinto, para nós, o melhor de toda a sua actuação.
Mas a sua prestação tinha fatalmente que se ressentir da falta de qualidade do antagonista, um manso que tanto acudia com timidez (caso do terceiro ferro), como se adiantava (caso do ferro seguinte), deslustrando o empenho do cavaleiro, obrigado a retirar-se sem cravar o último da série, por falta de colaboração do novilho.
Os amadores do Ribatejo concluíram aqui a sua primeira e vitoriosa intervenção da nascente temporada, indo para a cara o dedicado e valoroso Diogo Gomes, que imobilizou o novilho ao correr com as tábuas, depois de se terem malogrado tentativas anteriores noutros terrenos, sempre por falta de investida daquele.
Volta, com ida aos tércios, premiaram o trabalho dos artistas, merecendo saliência a atitude do cavaleiro, que só o fez empurrado pelo público, em inequívoca demonstração de verguenza torera tantas vezes ausente de idênticas situações com intervenção de outros seus colegas…
No que fechou praça, preto também e bisco de córnea, Marcos Tenório não teve oponente para mostrar o seu valor, ante um adversário que cedo escarvou e se refugiou em tábuas, muito embora tivesse porfiado quanto baste, com sucessivas mudanças de terrenos, sempre com o propósito de lograr investidas e de qualidade, partindo e cravando de dentro para fora no segundo comprido, contra a querença no terceiro, já da série dos curtos, com o hastado a esperar até à exaustão no ferro seguinte, para concluir no corredor, nos três finais.
O novilho foi pegado, à primeira vez, a contra-querença, por José Henrique, do grupo da Chamusca, que deu volta e saiu aos médios com o cavaleiro.
Assim se concluiu esta jornada, com matança de saudades dos aficionados mais carentes, sem problemas com o Código Penal por causa disso e com a vantagem acrescida – e decisiva! – do aparecimento e formação de novos aficionados. Na verdade, com os combustíveis ao preço por que estão, com notória tendência para agravamento, nada há de mais e melhor para a Festa do que espectáculos taurinos domésticos, assim se viabilizando a presença de quem quer assistir mas, desafortunadamente, não está em condições económicas de se poder deslocar.
Por isso, obrigado Chã de Baixo e até ao ano.