A ÚLTIMA CORRIDA DE TOIROS EM SALVATERRA (conclusão)
Longe vão os tempos em que o barómetro das corridas de toiros era a estocada.
Matadores, houve, então, que subiram a escada do êxito apoiados na segurança proporcionada tão só por uma espada certeira.
Mas o decurso dos anos trouxe à arte de tourear, crescimento e transformação.
O mesmo se diga dos partidários da sorte suprema, sem embargo da sua relevância no que tange à outorga de troféus, terreno em que se plantou, cresceu e consolidou a árvore dos efeitos fulminantes da estocada.
Há quem entenda ser a sorte de matar, quando não a mais complexa do baralho respectivo, ao menos, meritória e perigosa quanto baste.
Na morte por volapié deve o toureiro “perfilar-se em curto, mostrar o peito, olhar o cachaço, entrar a direito, cruzar a ponta do corno, cravar o estoque e sair incólume pelo costilhar”.
Mas, na transição do volapié perfeito, acima caracterizado, para a sorte a receber, acentua-se a tendência decrescente, em termos quantitativos, dos respectivos cultores. Isto porque, segundo alguns, uma tal modalidade é a suprema sorte do toureio por direito próprio, atenta a dificuldade – absoluta e relativa – que comporta e o perigo que encerra. Para esses, o matador tem a obrigação de citar todos os toiros e apenas entrar a volapié naqueles que não invistam. O volapié seria, assim, a estocada de recurso para suprir deficiências e salvar defeitos ou anomalias dos toiros.
Reflectíamos há dias sobre a excelente moldura humana apresentada, uma vez mais, pela alindada praça de Abiúl no primeiro domingo de Agosto, com cartel que chamara à barreira figuras de proa como Augusto Gomes e Vítor Mendes. Uma vez assim despertados para esta paixão antiga, ligámos a televisão espanhola, que então trouxe até nós a transmissão da corrida de Huelva, com toiros de Martelilla. E, ao terceiro da ordem, David Fandila, “el Fandi”, matou em sorte a receber, no meio da correspondente adesão do público, tal como em Salvaterra, corrida e cambiadas ditas, nada nos permitindo concluir que, em pleno feudo da dinastia Litri, a assistência fosse apenas composta por “anacletos”…
Recentemente, o crítico Carlos Martins recordou – e bem – que “as sortes cambiadas devem ser utilizadas como recurso com toiros que, por se adiantarem demasiado, não permitem que se toureie de frente”, concluindo a perguntar, não menos acertadamente, quem é que as utiliza como tal…
Pensamos, assim, nesta longa maratona sobre o tema, ter situado aquelas no lugar a que podem e devem aspirar no contexto das sortes do toureio.
Outros assuntos aguardam oportunidade de conhecer a luz do dia jornalístico, tais como a relevância da primeira parte da lide equestre, dos cites a favor da querença natural ou com os curros situados à esquerda, dos pares de bandarilhas com que, tantas vezes, se encerra a função, da violência, física e verbal, ameaças e injúrias que proliferam no mundillo.
É o que nos propomos fazer, além do mais, na colaboração que se avizinha.