A última corrida de toiros em Salvaterra IV
Concluída que se mostra esta agradável viagem pelos aliciantes caminhos da História, é tempo de voltar aos nossos dias, ou seja, ao espectáculo realizado naquela localidade em 30 de Março último.
Não podia ele ter sido uma corrida real, porque a tal sempre obstaria a mordaça constante do texto fundamental, como se, legalmente, a constituição de uma república não se mantivesse íntegra tão só enquanto se não procede à sua revisão. Mas pode rever-se, alterar-se, revogar-se e substituir-se, não se podendo defender como verdade eterna o que, por natureza, está sujeito à caducidade e à mudança. (Cfr. MIRANDA BARBOSA, in IªSemana de Estudos Doutrinários, pág. XXII).
Mas também não foi uma real corrida, por isso que o curro oriundo da Herdade da Fontalva, portador de mobilidade quanto baste e arrancando para os conjuntos sem cerimónias, esteve muitos furos acima de toureiros pouco inspirados, com a desafinação própria dos arranques das temporadas e, por isso, obrigados a desfazer as sortes ou sair em falso para resolver a papeleta contra adversários que, desta vez, não primaram pela distracção ou desinteresse como, em geral, de forma alarmantemente crescente, nos é dado deparar por essas arenas fora.
Não obstante, o cinzentismo, do ponto de vista técnico-artístico, dessa primeira corrida, em clara dessintonia com uma Primavera entretanto já chegada, conforme as indicações do calendário, mesmo assim sobraram dois motivos de interesse para as considerações que se passa a desenvolver.
Desde logo, a excelente moldura humana que preencheu as bancadas do velho tauródromo ribatejano, tipo aperitivo para o que iria ser a rampa de lançamento e já agora até a consolidação da temporada, com excelentes afluências de público, no mês seguinte,em Alter do Chão, onde, coincidentemente, os Murças também estiveram por cima dos cavaleiros, na aficionadíssima Benedita, onde a passagem do testemunho de Mário Inácio para João Guerra, no tocante à organização da corrida por parte das estruturas tertulianas, deixou intactas a aficion, o entusiasmo e o dinamismo daquelas gentes, com a corrida anual já integrada, por mérito intrínseco, no roteiro taurino e no calendário dos aficionados, em Évora,por ocasião do mui conceituado Concurso de Ganadarias, em que as gentes dos toiros acorreram dos mais diversos pontos do país para corresponder ao elevado alvedrio com que Carlos Pegado e Jorge Carvalho montaram esta edição daquela que estimamos como a mais emblemática corrida deste ano, através da escolha de cavaleiros da primeira fila, grupos de forcados com dezenas de anos que já levam de prática da arte de pegar e de toiros provenientes de ganadarias de postim de um e de outro lado da velha fronteira entretanto sucumbida às mãos dos carrascos europeus, com um produto da herdade da Adema e o selo do prestígio do nome Palha a compensar os aficionados que, de praça em praça, transportam o lábaro da esperança do encontro com animais que exibam casta e codícia, crescimento ao castigo, instinto de ataque, resistência à dor, concentração no adversário, investida longa, repetida, rectilínea,.pronta e à distância, a galope e em todos os terrenos, com a empresa a estabelecer a diferença na substituição, com naturalidade, de um toiro inutilizado mas, então, já duplamente farpeado e, por fim, recentemente, no Campo Pequeno, por ocasião da comemoração dos 30 anos da alternativa de João Moura.
(continua)