A última corrida de toiros em Salvaterra I
Apenas por parcial coincidência onomástica se poderia pensar que a razão de ser deste artigo – e dos seguintes, seu natural complemento – se prenderia com o festejo taurino que REBELO DA SILVA tratou no livro CONTOS E LENDAS, dado à estampa no já longínquo ano de 1873. Porém, não tendo esta nossa intervenção lugar por causa da mencionada corrida real mas apesar dela, nem por isso deixa de haver justificação para, “ a romper praça”, nos debruçarmos sobre aquela.
O citado autor inicia o trabalho da seguinte forma:
“O Senhor D. José, primeiro de nome, era em Salvaterra um rei em férias. A verdade é que os maldizentes notavam, em segredo, que Sua Magestade, em Lisboa, estava sempre ao torno e o Marquês de Pombal, no trono. O prolóquio fundava-se na habilidade mecânica do monarca como torneiro e no carácter dominador do marquês como ministro”.
MASCARENHAS BARRETO, in CORRIDA – breve história da Tauromaquia em Portugal, P. 38 e ss, refere ter sido no reinado de D. José que aconteceu o desastre de Salvaterra de Magos, mergulhando a Tauromaquia Portuguesa num romântico luto, sublinhando ser esta a versão apresentada por aquele na obra acima identificada. E acrescenta:
“Parece, todavia, que este autor, costumeiro em deixar-se embalar pela ficção romântica, deturpou os factos: o Marquês de Marialva teria vingado a morte do filho, mas em campo aberto, já que o Conde dos Arcos fora morto por um toiro durante um brinco, à vara larga, no sítio de Murteira, perto de Salvaterra, sem a presença do Rei D. José e da sua Corte”.
Solilóquio, in Pela Porta Grande, P. 74, navega nas mesmas águas desmistificadoras, enquanto escreve:
“A história da última corrida de toiros em Salvaterra, uma história trágica e linda, a que só falta ter acontecido”. Depois, in “Da glória à tragédia” inclui (P.129) a referência aos “conservadores que ficaram da última corrida que não houve em Salvaterra”.
DA HISTÓRIA DA TAUROMAQUIA de Jayme Duarte de Almeida, I, P.148, consta:
“Parece, contudo, que o facto (do Marquês de Marialva vingar a morte do filho, Conde dos Arcos, descendo as bancadas da praça para ir abater o toiro, frente a frente, a golpes da sua gloriosa espada) não é verdadeiro e, a sê-lo, não pode ter decorrido, nem no tempo, nem nas circunstâncias referidas pelo escritor (…). Está sobejamente provado que D. Pedro de Alcântara e Meneses, Marquês de Marialva, nasceu a 9 de Novembro de 1713. Se tinha 70 anos quando vingou a trágica morte de seu filho, a acção ter-se-ia passado em 1783, não podendo D. José estar presente, por ter falecido seis anos antes e o Marquês de Pombal também não poderia ter acorrido a acompanhar as lágrimas do nobre Marialva, pois já estava também sepultado”.
(continua)