“Tércio de quites”
No estertor do “mês louco de todas as corridas” que os Agostos de cada ano consubstanciam – é a altura do calendário em que, de braço dado com o seu irmão de Maio, embora por razões diferentes, as efemérides trazem-nos à lembrança as arenas de Linares, Barcelona e Colmenar Viejo, onde, respectivamente, tombaram o grande Manolete, o nosso José Falcão e José Cubero Yiyo, chamado à última da hora para substituir o incombustível Curro Romero – voltamos, esta semana, ao contacto das estantes e, por essa via, a um dos livros de Solilóquio, incontornável figura da Festa e da Crítica a quem, de há muito, é devida homenagem dos aficionados pelas vicissitudes taurinas de dezenas de anos admiravelmente retratadas na sua extensa e valiosa obra. Na verdade,
abrimos propositadamente o volume em que aquele autor reuniu as crónicas da temporada de 1998, em que tirou a alternativa El Juli e assim se fez para recordar o excerto do proémio respectivo, fruto, também ele, da sua erudita e meritória pena:
“o tércio de quites, outrora harmonioso adorno das corridas de touros, é uma espécie em vias de extinção (...). É também porque o primeiro tércio tomou ar de dispensável, prólogo, quanto mais breve melhor, da faena de muleta onde as orelhas se ganham, os triunfos se conquistam”.
E, o que se passava então, a dez anos de distância, com o toureio apeado, na vizinha Espanha, tem também correspondência na primeira parte da lide equestre levada a cabo no espectáculo nacional. De facto,
As touradas, no nosso país, têm o seu início com a cravagem dos ferros compridos, que, também eles, as mais das vezes, são reduzidos, em termos quantitativos, à sua expressão mais simples, apontados, frequentemente, de forma lamentavelmente heterodoxa, leia-se, ao arrepio das normas intangíveis do toureio e, tudo isso, em nome da ideia de que a lide se deve centrar na consumação da ferragem curta, quando não mesmo, como já vimos e relatámos, após mudança única de montada, no imediato trânsito para os adornos, como se, antes dos pares de bandarilhas, ferros de palmo ou pavios e violinos, houvesse já, a crédito do cavaleiro, a valorização a conceder pelo facto de se ter toureado a sério e bem.
Mascarenhas Barreto, já por mais que uma vez, justamente recordado nesta coluna, consignou:
“ Também o Prior do Crato apreciava lidar toiros, tanto no campo como na Praça.
Nesta época matavam-se toiros, atravessando-os com a lança de guerra ou, simplesmente, atacavam-se com uma lança de torneio, preparada para se quebrar ao impacto, deixando apenas um troço ferrado, no cachaço da fera. A este tipo de lança se chamou garrocha e, desta arma de jogo tauromáquico, descendeu o actual ferro comprido.”
Voltaremos, então, a esta temática, porquanto afigura-se-nos ser de maior interesse cotejar a dificuldade da cravagem dos ferros compridos e dos curtos e, inclusivamente, trazer à colação a significativa opinião do cavaleiro tauromáquico Manuel Mourisca.