NO HAY QUINTO MALO
De
quando em quando, mormente nos tendidos e no callejón
das praças espanholas, quando se mostra concluída
a lide do quarto da ordem e os olhares convergem para o "túnel
das surpresas" de que nos falava o egrégio crítico
taurino José Picão Tello, à espera do soar
do clarim que antecede - e anuncia - a saída do próximo
toiro, formula-se um voto de expectativa - e de esperança
- por recurso ao velho prolóquio que titula esta crónica.
Vejamos, então, algo do que está escrito - e comentado
- sobre o assunto.
Jayme Duarte de Almeida exprimiu-se nos termos que, com a devida
vénia, se passa a transcrever:
"Velho adágio taurino, com que se pretendia fazer
acreditar que, em regra, eram bons os toiros lidados em quinto
lugar nas corridas de toiros em Espanha.
No tempo em que foi criado, tinha este adágio certa razão
de ser, visto que, pertencendo aos criadores destinar a ordem
de saída, à arena, dos toiros que forneciam, era
corrente procurarem colocar nos primeiro, quinto e sétimo
lugares - especialmente no quinto - os toiros que maior confiança
lhes merecessem no que respeitava a bravura e nobreza.
Muito embora essa escolha tivesse consequências um tanto
contingentes, assim mesmo saíam com frequência
em quinto lugar os mais bravos toiros de cada corrida. Mais
tarde, apesar de estabelecidos os sorteios, continuou-se, no
entanto, a dizer que no hay quinto malo, embora sem qualquer
significado ou razão válida, até porque
são inúmeros os casos em que se verificou o contrário".
LUIZ FERNANDEZ SALCEDO, in VINTE
TOIROS DE MARTINEZ, opina:
"Daí a importância que os ganadeiros antigos
concediam à circunstância de abrir ou fechar praça
e por que procuravam deixar para quinto lugar o toiro de mais
confiança, considerando que nele acabava a corrida e
para que o público levasse, se fosse caso disso, um bom
sabor de boca, que o sexto toiro não proporciona tão
cabalmente, porque as pessoas já estão pensando
em retirar-se, ou se retiram, efectivamente, ao dar dos seis
primeiros muletazos, agora e quando eu era rapaz, ao tocar para
bandarilhas".
Por último, diz DON VENTURA,
na obra "A Tauromaquia no século XIX":
"A conhecida frase (
), aplicada ao toiro que se lida
em quinto lugar, tem a sua origem em que, quando os ganadeiros
se arrogavam a faculdade de estabelecer a ordem em que os seus
hastados haviam de ser lidados, destinavam o de melhor nota
para ser corrido no dito posto".
A transmissão televisiva
de 17 de Junho último da corrida de Albacete trouxe-nos
um encierro de Las Ramblas caracterizado pela mobilidade e pela
ânsia de provocação para o arranque imediato.
Mas o quinto do lote, genuinamente bravo, foi o toiro da corrida,
desaproveitado na parte derradeira do último tércio,
esfumando-se por isso a possibilidade da concessão do
indulto, que, ele próprio, merecia, bem como o seu criador
e também os aficionados.
Assim, naquela tarde taurina e pelo tempo breve da respectiva
lide, a tradição marcou presença e voltou
a ser o que era