“TOUREAR E FARPEAR”
O título da presente crónica foi retirado, com toda a justiça, do livro com que o Senhor D. Bernardo da Costa (Mesquitella) brindou a aficion no dealbar dos anos 30 do último século e a que dedicaremos particular atenção após o final da temporada.
A segunda e última corrida, este ano realizada na Figueira da Foz, foi também tema de reportagem no número anterior, tendo deixado excelentes indicações, com a prestação de alguns ginetes a impor trabalho acrescido em sede de eleição da intervenção a pontuar.
E, como o aludido espectáculo foi à portuguesa, recordemos as valiosas considerações do crítico aristocrata que substratizam a dicotomia utilizada para epigrafar a obra em referência:
“Tourear é dar lide a um toiro, é dar-lhe toureio, é dominá-lo, impor-lhe a nossa vontade, dar cabo dele, reduzi-lo a nada. O verdadeiro toureio, por conseguinte, é aquele em que o toureiro toureia o toiro. Toureá-lo não é enfeitá-lo, repito: é dominá-lo, vencê-lo”.
Corrochano, ali citado, defendera: tourear é sair a poder com o toiro, lutando e dominando-o.
“Lembro-me sempre da velha máxima rondenha do tourear é parar.
Mesmo de cima de um cavalo, há que parar-se com os toiros. Há toiros aos quais é preciso mostrar bem o cavalo e o cavalo mostra-se-lhes indo devagarinho à cara deles.
Tourear é parar. Parar, no toureio a cavalo, não significa estar parado, porque isso iria contra a ideia de movimento, em que se baseia esta modalidade do toureio: quere dizer, sim, que esse movimento não é a correria pela praça fora com o toiro atrás, mas antes um movimento cujo ritmo seja o mais moderado possível, para que o cavaleiro, como o toureiro a pé, aguente os toiros. Aguentar um toiro é a base, o segredo de todo o toureio. E é o que no toureio tem importância. Aos toiros deve-se dar a lide apropriada ao seu domínio. Não digo, de propósito, a lide que os toiros pedem, porque a verdade é que não sei se o toureio é dar ao toiro a lide que ele quere, se é contrariá-lo”.
Sustentámos antes importar sobretudo na lide equestre o que se faz com o toiro por diante, que é quando o risco do combate com a fera, uma vez chegados à reunião, atinge o escalão máximo.
É pois, o embroque o momento taurino por excelência.
Por conseguinte, haverá que atender também ao local onde o encontro aconteceu, por referência à posição relativa do conjunto e do toiro e à decisiva circunstância da ferragem ser apontada antes, em frente ou depois do estribo.
Todavia, o toiro de lide e a lide do toiro devem ser vistos igualmente à luz da mensagem nuncista da primeira parte do seu dilatado califado e da explosão mourista da segunda metade dos anos 70, sob pena de grave retrocesso em termos de apreciação crítica, quer dizer, ao período anterior ao aparecimento e revelação do autor referido.