O DEBUTE
Com a chegada da televisão no já recuado ano de 1957, os portugueses, que viviam a pacatez própria da sociedade daquele tempo, puderam contactar progressivamente com realidades as mais diversificadas e que chegavam através de tão poderoso meio de comunicação, sem embargo das limitações de toda a ordem próprias dos primeiros anos da sua existência e funcionamento.
Por assim ser, numa enumeração meramente exemplificativa, o Fado saiu de Lisboa em todas as direcções e entrou pelas casas provincianas, suscitando entusiasmos e conseguindo adesões; a transmissão das finais europeias de futebol no ínicio da década de 60, com as duas espectaculares e consecutivas vitórias do Benfica, pôde ser seguida de perto, como se todos nós, desse tempo, estivéssemos sentados nas bancadas dos estádios de Berna e Amesterdão; no que tange à Tauromaquia, afinal o tema exclusivo desta publicação, a clarividência de Manuel dos Santos levou-o a abrir as portas das praças de toiros por si geridas às transmissões televisivas dos espectáculos que organizava, revendo-me agora a corresponder ao incitamento paterno de acompanhamento das tentativas de pegas – sem dúvida, a parte mais espectacular da tourada, (empregue esta expressão com o significado de distinguir os espectáculos tauromáquicos levados a cabo com cavaleiros e forcados da verdadeira corrida, que é aquela que se pratica nos demais países onde se correm toiros e onde têm lugar, natural e logicamente, a sorte de varas e a morte do toiro), logo, por definição, mais propícia a prender a atenção de quem, como eu, quanto mais não fosse por imperativos geográficos, vivia completamente divorciado dos locais onde se realizavam.
Depois de ver e aplaudir as pegas, com os grupos de Santarém e Montemor então em grande forma, não foi difícil interessar-me pelas outras vertentes da tourada, fosse o toureio a cavalo, fosse o toureio apeado, este último, evidentemente, só quando a transmissão incidia sobre eventos de natureza mista.
Isto tanto mais quanto é certo que a própria Imprensa do tempo tinha pela Tauromaquia outro respeito e lhe dedicava interesse diferente, muito maior e melhor do que actualmente, com Cabral Valente, José Picão Tello, Leopoldo Nunes, Manuel Azambuja, Nizza da Silva, Saraiva Lima e outros, a darem notícia, tantas vezes exaustiva, do que sucedia tarde após tarde e noite após noite, resenhando, criticando e, sobretudo, explicando as vicissitudes em que se desdobrava a actuação dos intérpretes nas.arenas.
Assim me fiz aficionado e como tal me mantive durante os últimos 40 e tal anos, pelo que posso afirmar com segurança que, não tendo nascido ligado à Festa Brava, por ela morrerei apaixonado, pelo seu significado no acervo da cultura peninsular, pelas regras que a ela presidem, pelos seus cultores mais qualificados, de alguns dos quais ainda tive ensejo de presenciar actuações e de me congratular com os seus triunfos ou solidarizar com os insucessos.
Uma palavra, agora, para justificação do título escolhido.
Como é sabido, debutar significa estrear-se, começar.
Cândido de Figueiredo ensina que o termo constitui “galicismo inadmissível”, oriundo, como é, do francês débuter, o que ajuda a explicar a sua ausência, quer da Enciclopédia Tauromáquica, de Jayme Duarte de Almeida, quer do Gran Dicionário Tauromáquico, de J. Sánchez de Neira.
E, na verdade, o presente trabalho, em forma de livro, constitui o meu baptismo em tais andanças.
Para tanto, militaram várias ordens de razões, de que destaco:
- 1) A preocupação de dar continuidade, ao nível da faixa etária em que me insiro, ao trabalho encetado por outros familiares das gerações que me antecederam e que deixaram aos vindouros constância documentada do seu labor pelos ingentes caminhos das Letras e das Artes, unidos pelo cordão umbilical do apelido Gomes que orgulhosamente tenho integrado também na minha própria identificação, embora nenhum deles se tivesse interessado demoradamente pelos assuntos de cavalos, toiros e toureiros, com a conhecida excepção de meu primo João Carlos Celestino Gomes, que deu até à estampa o livro “Signo do Toiro”;
- 2) O propósito de escrever sobre um tema objectiva e subjectivamente fascinante, como é o taurino e sobre aquilo de que se gosta, bem longe da escrita profissionalizada que exercito há dezenas de anos;
- 3) A opção por este tipo de trabalho em detrimento da possível colaboração em qualquer órgão de informação com páginas taurinas, sem a pressão, que impunha a mim próprio, de escrever logo, em cima do acontecimento, para que a crónica chegasse cedo ao público , seu primeiro destinatário, pressão essa desaconselhável – e desaconselhada!- por razões de idade e de saúde, com a possibilidade, que assim e agora se abre, de mais demorada reflexão e amadurecimento, antes de lançar ao papel os apontamentos recolhidos nas praças e também o que foi retido pela memória.
Mas debutar transporta também, em si mesmo, a ideia de continuidade, sendo, de resto, esse o propósito que me anima. De facto, ninguém se estreia hoje, seja qual fôr o tipo de actividade em que tal aconteça, para, de motu proprio, sem a existência de um motivo sério, resignar logo amanhã...
Tal como nos espectáculos taurinos existe o terceiro estado do seu elemento fundamental, também na vida do ser humano há a chamada terceira idade daqueles que a alcançam.
Caso não seja atingido entretanto por uma das cornadas em que o Destino é fértil, doravante, com a habitualidade possível, mas, desafortunadamente, não com a desejável, sairei a terreiro em amenas excursões pela temática taurina, independentemente de o fazer na perspectiva do Passado, do Presente, ou mesmo do Futuro.
E tanto pode – e deve! – ser escrito...
Uma vez aqui chegado, impõe-se concluir, por isso que “soam já clarins e timbales”.
Dizia há pouco um colega do tempo da Faculdade que “nove horas não são a mesma coisa do que nove horas e dez minutos”.
O público, nas praças, também veste pelo mesmo figurino, protestando, uma vez ultrapassadas as proverbiais dezassete horas ou qualquer outra que se publicite como sendo a do início da função, caso aquele seja retardado, como sucede bastas vezes, pelos mais variados motivos.
Com a temporada de 2005 a bater à porta, o mesmo é dizer que com o presente defeso a agonizar, concretize-se então a minha primeira saída às arenas da generalizadamente reconhecida por pouco aditada bibliografia taurina portuguesa...