DAVID RIBEIRO TELLES – V
Pela feira do Ribatejo de 1961, “obra grandiosa erguida à custa de sacrifícios e canseiras de umas sete dezenas de boas vontades, verdadeiro monumento de amor à região”, na corrida de gala à antiga portuguesa, “primeiro dos dois espectáculos integrados nesse extraordinário empreendimento”, “Pedro Louceiro e David Ribeiro Teles tourearam como há bastante tempo não se via”. O da Torrinha, “sem recorrer a qualquer espécie de vantagens, tudo quanto fez, a bem dizer, esteve certo e foi repassado de ritmo, de valor, de beleza, de arte e de verdade. Procurou citar, desenhou bem as sortes, evitou a velocidade e usou, mesmo, de apreciável lentidão. Cravou quási sempre ao estribo e, até, de forma empolgante.
Não toureou de cara, mas as sortes à tira também são clássicas e têm mérito. Houve-se lealmente com um animal bravo e encastado, que cresceu ao castigo – tipo de touro que a maior parte dos outros cavaleiros não gosta de ver, nem pintado”.
Na corrida de encerramento do certame, “David R. Teles, ao contrário do colega, tende a parar a agulha em boa rota. Despido de certas habilidades, evidencia vontade, força interior, mais fundo. Alguma coisa de bom está a vir à superfície. E isso a que podemos chamar, hoje, qualidade e, amanhã, classe, bem se lhe pressentiu, em especial, no segundo touro da ordem. O seu toureio tem muito mais verdade, quer pela ausência das tais habilidades, quer pela relativa lentidão de que está a usar, quer, ainda, pela maneira como vai aguentando no último tempo das sortes e, de quando em quando, até na viagem. Deu-nos um apreciável esboço de toureio sério.
Não se podem tourear os animais no primeiro estado, nem esperar que, apenas por si, passem ao segundo; e não se devem fazer passar brusca, comodamente, do primeiro ao último estado; é necessário, como no toureio a pé, fixá-los e pô-los à medida – no caso, fixá-los no cavalo e, depois, à custa de lide, pô-los então à medida. Para tanto, não é aconselhável levá-los, presos da garupa da montada, em sucessivas voltas à arena, que os cansa e aborrece., mas dobrá-los, para ambos os lados, com muita conta, com suavidade, sem os recortar, nem lhes tirar as investidas. Sobretudo, é imprescindível não confundir dobrar com dobrada – artifício que alguns usam para deixar os touros quedados e alheios, a fim de, seguidamente, lhes aparecerem em curto e de surpresa.
No seu primeiro começou por mandar retirar a quadrilha, sendo, por isso, alvo de muitos aplausos. Seguidamente, prepara e deixa o inimigo colocado. Cita. O touro não arranca. O cavaleiro prepara de novo, leva o adversário consigo, sem velocidade, despega-se, (…) desenha bela sorte de frente; vai devagar para o touro, aguenta, quarteia-se e sangra. Torna a preparar. Mostra-se bem. Dá ao animal a sensação de que é receado, para o confiar e convencer à luta. Está acertado na lide e composto em tudo o resto. Cita, parte à tira, aguenta e prende o terceiro comprido. Nunca evita citar”.
Por sua vez, na Primavera desse já tão distante ano, na corrida organizada em Évora pela “prestigiosa agremiação” local, David “montou primorosamente, citou e desenhou muito bem as sortes, moveu-se, frequentemente, com bastante lentidão e, sempre com admirável harmonia, mostrou em esboço a extraordinária beleza e seriedade que o seu toureio pode ter”.
O exigente crítico continua, depois, a escalpelização das actuações do artista com recurso sintomático a adjectivos como monumental e estupendo.
Noutra ocasião, no Campo Pequeno, refere “a lentidão e o ritmo com que se move, as fases admiráveis de equitação e toureio que tem, tudo sendo clássico nele”.
Ainda na mesma coluna mas sob a pena de outro articulista e à saída do Verão de 1960, exarava-se:
“David Ribeiro Teles teve mais uma actuação ao seu nível. Como equitador, primoroso. Quando prende o touro à garupa dos seus magníficos cavalos e, serenamente, os leva para onde quer, em recortes de figuras animadas, não há quem não se sinta como que transportado a um mundo irreal.
Com lentidão entrou Ribeiro Teles em várias tentativas de sortes de frente, sem encontrar colaboração dos touros. E, só rodando devagar, na cabeça do seu primeiro manso, conseguiu um momento para cravar”.
(continua)