David Ribeiro Telles - I
No final da última feira da Golegã que, por curioso capricho do calendário, desta vez ocorreu no próprio dia de S. Martinho, completou 80 anos o antigo cavaleiro, ganadeiro e aficionado, David Ribeiro Telles.
Guerra Junqueiro, in “Os Simples”, no poema “A Moleirinha”, diz que “…a velha vai para o moinho, tem oitenta anos, bem bonito rol!”
Uma tal efeméride, bem como toda uma vida intensa e longa de dedicação ao campo, aos toiros e aos cavalos, justificam que a sua trajectória seja abordada nas páginas de um jornal taurino, ainda em tempo de defeso, por definição, altura própria de reflexão e abordagem da carreira de figuras que integram o rico património do multi-secular espectáculo.
Assim é que, iniciando-se nas lides muito novo, mas com alternativa voluntariamente tirada apenas transposta a fronteira dos trinta anos, ali chegou depois de uma brilhante carreira de amador, com excelentes provas dadas, uma vez subidos os degraus que o conduziram a um patamar compatível com a mudança de estatuto.
Depois, seguiu-se uma carreira de décadas, com várias actuações de realce, de que agora recordamos:
A - A corrida da profissionalização de seu filho António, em Julho de 1983, na praça do Campo Pequeno, num dia em que também o progenitor-padrinho comemorava quarenta anos de toureio e vinte cinco de doutoramento, com um ferro comprido – o último – de antologia, pela distância do desafio, prioridade da arrancada, reunião no tempo e lugar próprios, saída sem mácula do encontro perigoso e verdadeiro com o primeiro do seu lote, a que logo se seguiram dois curtos, também eles de elevada qualidade;
B - Cinco anos após, na corrida adrede organizada para a comemoração dos seus trinta anos de investidura formal como cavaleiro tauromáquico, o Mestre, como já então era justamente tratado, (pois, como tal, deve ser visto, aquele que ensina), quer pelas excelentes capacidades sempre evidenciadas, na ligação ao adversário e sua colocação em terrenos adequados, no posterior chamamento e espera pela partida do oponente, no encontro e saída de acordo com os tratados, quer pela disponibilidade de transmissão aos muitos que têm transitado pela Torrinha das regras a respeitar por aqueles que se propõem enfrentar a cavalo o toiro de lide, a saber, a distinção do equitador e o culto do classicismo na escrupulosa observância das normas básicas da arte de Marialva, voltou a montar cátedra no mesmo local, pois suportou a imprevista arrancada do oponente no preciso momento em que recuava a quando do cite – o que tem o significado técnico de não estar já, nem ainda de novo em sorte – sem cedências que se compreenderiam, aguentou e reuniu em curto, para consumar e concluir como se impunha.
(continua)