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_______________________Toiros XXI
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(Artigos de opinião de Manuel José Gomes Vaz Craveiro)
 




       
 
 
   

     

A CRÍTICA - I

Com a prévia explicação de que o nosso defeso foi anormalmente longo em função de uma cornada infringida pela doença, a qual obrigou inclusivamente a internamento na quadra do ano – a semana do S. Martinho – em que mais prezamos a liberdade de movimentos e de circulação, iniciamos hoje a abordagem do tema da função da Crítica, de grande actualidade por causa dos dissídios entre alguns dos seus membros no que respeita ao toureio a cavalo e saindo a terreiro com uma extensa e rica citação de um então crítico literário cujos juízos de valor assentam como uma luva ao caso particular do mundo dos toiros. Com efeito, se dentro das fronteiras da literatura existiram sempre verdadeiras obras de arte a pedir – e até a merecer! – a saudação que é devida por intervenção da actividade crítica, também a História da Tauromaquia é rica em monumentos construídos pelo génio de muitos dos seus cultores, desde logo, no toureio apeado, mas também na lide equestre. E, por assim ser, o que se diz ou disse a propósito de obras literárias, por identidade de razão pode e deve ser referido no que respeita a faenas que ficaram na memória de quem as presenciou ou a que se pode aceder via filmes ou descrições passadas ao papel.
E a extensão acima referida, por indeclinável respeito para com os sagrados direitos do leitor, aconselhou a que o presente trabalho se prolongasse por vários artigos, que é assim como a selecção de textos e os comentários tidos por pertinentes irão ser lançados na página e submetidos à apreciação e julgamento dos seus destinatários.
Em data que o próprio situa no período compreendido entre os já recuados anos de 1943 e 1953, aquele que viria a ser, mais tarde, figura cumbre da vida portuguesa e cujos restos mortais, por coincidência, repousam no cemitério da taurina Vila Franca de Xira, ali mesmo a dois passos da Palha Blanco, escreveu como se segue:

“Creio que todos, ao menos em princípio, estão de acordo com esta afirmação; a crítica literária – como aliás as várias modalidades da crítica – é absolutamente necessária. Mais: aceitam que a crítica, além de imparcial e serena, deve ser severa e implacável no julgamento. E exaltam as suas vantagens: constitui um esclarecimento para o público; auxilia os autores na valorização e aperfeiçoamento das suas qualidades; contribui para elevar o nível da literatura. A crítica aparece-nos assim como uma actividade benfazeja e generosa. Mas este pacífico encontro de opiniões é meramente teórico. Quando da teoria passamos à prática, surgem imediatas divergências. E então a crítica é apoucada nas suas virtudes e diminuída no seu alcance. Antes, louvada e tida por indispensável, é depois rapidamente considerada como coisa inútil e odiosa. Os seus antigos defensores são os primeiros a atacá-la. E desfecham os argumentos já conhecidos: é uma actividade falível; muitas vezes o crítico não está à altura da obra criticada; e pode não compreender a obra de arte que num dado momento supere e ultrapasse esse próprio momento. E apontam-se, como fundamento destas razões, os erros históricos da crítica. Já parece um pouco singular, todavia, aquela mudança quase súbita de opiniões acerca de uma questão fundamental. E essa estranheza aumenta se analisarmos os motivos que a determinam. Em geral, estamos perante um caso de despeito. A crítica é sempre bem vinda desde que não emita um juízo desfavorável. Se o fizer é desprezada. Em Portugal é quase certo encontrarmos detractores da crítica em todos os que dela não receberam os elogios a que se julgavam com direito. Tal atitude traduz somente uma lamentável falta de isenção. E esta tanto é nociva ao crítico como ao criticado. Prejudica o crítico porque procura conseguir, por caminhos tortuosos, o cerceamento da sua liberdade e da sua independência. Prejudica o criticado porque a este nada pode ser mais benéfico do que a verdade ou, pelo menos, aquilo que o crítico presuma ser a verdade sobre a obra que aprecia. É certo que aqueles que depreciam a crítica têm razão quando a acusam de ser limitada. Mas a realidade é que a crítica sofre limitações exactamente no mesmo plano em que as sofre qualquer outra actividade criadora. É uma condição insuperável que não deriva da crítica em si própria mas do homem. De resto, às provadas insuficiências da crítica é lícito contrapor as suas virtudes e as suas vantagens. E estas, tanto como aquelas, estão largamente comprovadas para todos os espíritos despidos de vaidade ou de despeito.
No entanto, eu compreendo realmente que a crítica não seja simpática. É sem dúvida muito duro ver deitar por terra, em meia dúzia de linhas, uma obra que consumiu longos esforços e que muitas vezes representou, durante anos, o principal interesse e a mais íntima preocupação da vida. O trabalho de criação, quando é de autêntica criação que se trata, repousa no que há de mais profundo e de mais permanente no homem: a ânsia de se projectar e a ambição de se realizar. É doloroso, por isso, que depois seja dito que esse trabalho não possui valor algum ou vale muito pouco. É doloroso sobretudo concordar com qualquer afirmação que a crítica faça nesse sentido. Por isso se prefere ver numa apreciação desfavorável um erro do crítico e uma injustiça. E é inútil dizer aos autores que o erro do crítico apenas recai sobre este. Nada escutam, nenhuma razão atendem. E nem se lembram deste lugar-comum: se a sua obra tiver de sobreviver no tempo não há crítica que a isso consiga obstar, por maior que seja a autoridade do crítico. Mas esta realidade inexorável, não a desejam ver os escritores. E procedem como se pensassem que o crítico se compraz em julgar desfavoravelmente as suas produções. E no entanto a situação é muito diferente. É bem mais fácil e mais brilhante fazer uma crítica exaltativa do que uma crítica destruidora. Uma obra de arte densa, forte, profunda, é sempre mais rica de ideias, de problemas, de sugestões. O crítico encontrará nela imensos pretextos para comentários e interpretações em que a sua cultura, a sua penetração e a sua sensibilidade têm vasto campo de aplicação. E porque a crítica não pode antecipar-se à obra de arte, é esta muitas vezes que leva o crítico à descoberta de novos conceitos, de novos rumos para a própria crítica. Ao contrário, uma obra medíocre ou nula não apresenta, na sua pobreza e na sua ausência de significado, qualquer possibilidade de análise ou de comentário. O crítico tem de cingir-se a escrever que é uma obra inferior. E se quiser fundamentar o seu juízo, terá grande dificuldade. Terá de proceder negativamente: a obra é inferior porque lhe faltam determinadas características, porque não revela certas qualidades indispensáveis, etc. Por isso, um juízo exaltativo é de mais fácil justificação: o papel do crítico será o de salientar, interpretando-os, os valores estéticos que a obra encerra. Sem embargo, dir-se-á que a revelação dos valores de uma obra de arte depende da argúcia, da cultura, da sensibilidade, isto é, das qualidades e da envergadura do próprio crítico. Este pode negar valor a uma obra apenas porque lho não soube descobrir. Ao que presumo, ninguém se recusa a admitir este facto. Todavia, isso significa tão somente que há bons críticos e maus críticos. Há bons poetas e maus poetas, bons escultores e maus escultores. Por que não se aceita como coisa natural a existência de maus e de péssimos críticos? Um crítico emite um juízo que incide directamente sobre uma criação alheia. O crítico, sob certo prisma, não é mais do que um leitor que exterioriza as suas opiniões. Mas justamente porque é assim e ninguém tem o direito de se julgar um bom crítico, este nunca deve perder de vista a sua falibilidade: hesitar nos seus juízos é a primeira manifestação de inteligência e de honestidade mental; e apresentá-los com decisão e coragem, sem muito embora os considerar definitivos para si mesmo, é a prova da sua capacidade de evoluir e de compreender. Há trabalhos produto de um amadorismo e de uma vaidade oca e que nada contêm que represente um valor de criação ou denote uma possibilidade futura. E, infelizmente, obras deste nível estão-se tornando entre nós ridícula e burlescamente frequentes. Em face de tais realizações, o crítico não pode hesitar: impõe-se-lhe condená-las sem apelo e sem qualquer piedade. Não o fazer é trair-se da mesma forma por que se trai o artista que transige com o público procurando satisfazer, com oportunismo, as suas preferências transitórias ou a moda efémera”.

     

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