A CRÍTICA
- I
Com a prévia explicação de que o nosso defeso
foi anormalmente longo em função de uma cornada
infringida pela doença, a qual obrigou inclusivamente a
internamento na quadra do ano – a semana do S. Martinho
– em que mais prezamos a liberdade de movimentos e de circulação,
iniciamos hoje a abordagem do tema da função da
Crítica, de grande actualidade por causa dos dissídios
entre alguns dos seus membros no que respeita ao toureio a cavalo
e saindo a terreiro com uma extensa e rica citação
de um então crítico literário cujos juízos
de valor assentam como uma luva ao caso particular do mundo dos
toiros. Com efeito, se dentro das fronteiras da literatura existiram
sempre verdadeiras obras de arte a pedir – e até
a merecer! – a saudação que é devida
por intervenção da actividade crítica, também
a História da Tauromaquia é rica em monumentos construídos
pelo génio de muitos dos seus cultores, desde logo, no
toureio apeado, mas também na lide equestre. E, por assim
ser, o que se diz ou disse a propósito de obras literárias,
por identidade de razão pode e deve ser referido no que
respeita a faenas que ficaram na memória de quem as presenciou
ou a que se pode aceder via filmes ou descrições
passadas ao papel.
E a extensão acima referida, por indeclinável respeito
para com os sagrados direitos do leitor, aconselhou a que o presente
trabalho se prolongasse por vários artigos, que é
assim como a selecção de textos e os comentários
tidos por pertinentes irão ser lançados na página
e submetidos à apreciação e julgamento dos
seus destinatários.
Em data que o próprio situa no período compreendido
entre os já recuados anos de 1943 e 1953, aquele que viria
a ser, mais tarde, figura cumbre da vida portuguesa e cujos restos
mortais, por coincidência, repousam no cemitério
da taurina Vila Franca de Xira, ali mesmo a dois passos da Palha
Blanco, escreveu como se segue:
“Creio
que todos, ao menos em princípio, estão de acordo
com esta afirmação; a crítica literária
– como aliás as várias modalidades da crítica
– é absolutamente necessária. Mais: aceitam
que a crítica, além de imparcial e serena, deve
ser severa e implacável no julgamento. E exaltam as suas
vantagens: constitui um esclarecimento para o público;
auxilia os autores na valorização e aperfeiçoamento
das suas qualidades; contribui para elevar o nível da literatura.
A crítica aparece-nos assim como uma actividade benfazeja
e generosa. Mas este pacífico encontro de opiniões
é meramente teórico. Quando da teoria passamos à
prática, surgem imediatas divergências. E então
a crítica é apoucada nas suas virtudes e diminuída
no seu alcance. Antes, louvada e tida por indispensável,
é depois rapidamente considerada como coisa inútil
e odiosa. Os seus antigos defensores são os primeiros a
atacá-la. E desfecham os argumentos já conhecidos:
é uma actividade falível; muitas vezes o crítico
não está à altura da obra criticada; e pode
não compreender a obra de arte que num dado momento supere
e ultrapasse esse próprio momento. E apontam-se, como fundamento
destas razões, os erros históricos da crítica.
Já parece um pouco singular, todavia, aquela mudança
quase súbita de opiniões acerca de uma questão
fundamental. E essa estranheza aumenta se analisarmos os motivos
que a determinam. Em geral, estamos perante um caso de despeito.
A crítica é sempre bem vinda desde que não
emita um juízo desfavorável. Se o fizer é
desprezada. Em Portugal é quase certo encontrarmos detractores
da crítica em todos os que dela não receberam os
elogios a que se julgavam com direito. Tal atitude traduz somente
uma lamentável falta de isenção. E esta tanto
é nociva ao crítico como ao criticado. Prejudica
o crítico porque procura conseguir, por caminhos tortuosos,
o cerceamento da sua liberdade e da sua independência. Prejudica
o criticado porque a este nada pode ser mais benéfico do
que a verdade ou, pelo menos, aquilo que o crítico presuma
ser a verdade sobre a obra que aprecia. É certo que aqueles
que depreciam a crítica têm razão quando a
acusam de ser limitada. Mas a realidade é que a crítica
sofre limitações exactamente no mesmo plano em que
as sofre qualquer outra actividade criadora. É uma condição
insuperável que não deriva da crítica em
si própria mas do homem. De resto, às provadas insuficiências
da crítica é lícito contrapor as suas virtudes
e as suas vantagens. E estas, tanto como aquelas, estão
largamente comprovadas para todos os espíritos despidos
de vaidade ou de despeito.
No entanto, eu compreendo realmente que a crítica não
seja simpática. É sem dúvida muito duro ver
deitar por terra, em meia dúzia de linhas, uma obra que
consumiu longos esforços e que muitas vezes representou,
durante anos, o principal interesse e a mais íntima preocupação
da vida. O trabalho de criação, quando é
de autêntica criação que se trata, repousa
no que há de mais profundo e de mais permanente no homem:
a ânsia de se projectar e a ambição de se
realizar. É doloroso, por isso, que depois seja dito que
esse trabalho não possui valor algum ou vale muito pouco.
É doloroso sobretudo concordar com qualquer afirmação
que a crítica faça nesse sentido. Por isso se prefere
ver numa apreciação desfavorável um erro
do crítico e uma injustiça. E é inútil
dizer aos autores que o erro do crítico apenas recai sobre
este. Nada escutam, nenhuma razão atendem. E nem se lembram
deste lugar-comum: se a sua obra tiver de sobreviver no tempo
não há crítica que a isso consiga obstar,
por maior que seja a autoridade do crítico. Mas esta realidade
inexorável, não a desejam ver os escritores. E procedem
como se pensassem que o crítico se compraz em julgar desfavoravelmente
as suas produções. E no entanto a situação
é muito diferente. É bem mais fácil e mais
brilhante fazer uma crítica exaltativa do que uma crítica
destruidora. Uma obra de arte densa, forte, profunda, é
sempre mais rica de ideias, de problemas, de sugestões.
O crítico encontrará nela imensos pretextos para
comentários e interpretações em que a sua
cultura, a sua penetração e a sua sensibilidade
têm vasto campo de aplicação. E porque a crítica
não pode antecipar-se à obra de arte, é esta
muitas vezes que leva o crítico à descoberta de
novos conceitos, de novos rumos para a própria crítica.
Ao contrário, uma obra medíocre ou nula não
apresenta, na sua pobreza e na sua ausência de significado,
qualquer possibilidade de análise ou de comentário.
O crítico tem de cingir-se a escrever que é uma
obra inferior. E se quiser fundamentar o seu juízo, terá
grande dificuldade. Terá de proceder negativamente: a obra
é inferior porque lhe faltam determinadas características,
porque não revela certas qualidades indispensáveis,
etc. Por isso, um juízo exaltativo é de mais fácil
justificação: o papel do crítico será
o de salientar, interpretando-os, os valores estéticos
que a obra encerra. Sem embargo, dir-se-á que a revelação
dos valores de uma obra de arte depende da argúcia, da
cultura, da sensibilidade, isto é, das qualidades e da
envergadura do próprio crítico. Este pode negar
valor a uma obra apenas porque lho não soube descobrir.
Ao que presumo, ninguém se recusa a admitir este facto.
Todavia, isso significa tão somente que há bons
críticos e maus críticos. Há bons poetas
e maus poetas, bons escultores e maus escultores. Por que não
se aceita como coisa natural a existência de maus e de péssimos
críticos? Um crítico emite um juízo que incide
directamente sobre uma criação alheia. O crítico,
sob certo prisma, não é mais do que um leitor que
exterioriza as suas opiniões. Mas justamente porque é
assim e ninguém tem o direito de se julgar um bom crítico,
este nunca deve perder de vista a sua falibilidade: hesitar nos
seus juízos é a primeira manifestação
de inteligência e de honestidade mental; e apresentá-los
com decisão e coragem, sem muito embora os considerar definitivos
para si mesmo, é a prova da sua capacidade de evoluir e
de compreender. Há trabalhos produto de um amadorismo e
de uma vaidade oca e que nada contêm que represente um valor
de criação ou denote uma possibilidade futura. E,
infelizmente, obras deste nível estão-se tornando
entre nós ridícula e burlescamente frequentes. Em
face de tais realizações, o crítico não
pode hesitar: impõe-se-lhe condená-las sem apelo
e sem qualquer piedade. Não o fazer é trair-se da
mesma forma por que se trai o artista que transige com o público
procurando satisfazer, com oportunismo, as suas preferências
transitórias ou a moda efémera”.