Em ALMEIRIM, o espectáculo foi interessante
Teve lugar em Almeirim no primeiro feriado de Maio de 2006, esse bonito mas trágico mês para a Tauromaquia, uma corrida de toiros de Pinto Barreiros, com idade, peso e trapio, de comportamento desigual, com a intervenção dos cavaleiros Joaquim Bastinhas, Rui Salvador, Luís Rouxinol, Teles Bastos, Manuel Lupi e Marcos Tenório e dos forcados amadores de Montemor e do Aposento da Moita, chefiados, respectivamente, por Rodrigo Correia de Sá e Hélder Queirós.
A assistência terá rondado as 3000 pessoas e a direcção do espectáculo coube a Pedro Maria Gomes, que o fez criteriosamente, sem transigências com a impaciência dos candidatos à função disseminados pelas bancadas que, por este andar, qualquer dia exigem música antes do início das lides, no hiato subsequente ao final das cortesias
O toiro que rompeu praça caiu logo de entrada, dobrando as mãos e coxeando, pelo que foi devolvido aos currais.
Alterou-se assim a ordem das actuações, cabendo a Rui Salvador a primeira, com João Silva a recebê-lo e o cavaleiro a colocá-lo em sorte infrutiferamente, pois o hastado virou as costas para, de seguida, perseguir o conjunto, com aperto contra as tábuas.
Depois dos ferros compridos, no segundo e último dos quais o toiro esperou pela reunião, Rui sacou a montada com ferro da Coudelaria Nacional – o cavalo dos êxitos – com o qual levou a cabo uma brega de qualidade, próximo do adversário, um preto listão que se revelou andarilho, apontando cinco curtos, rodando no piton no penúltimo, para concluir em grande, pois suportou e dominou perseguição, deixou o toiro colocado nos médios, reuniu ao estribo e cravou com verdade e mérito.
Pedro Marques, do Aposento da Moita, pegou à barbela e à primeira, com Tiago Ribeiro a rabejar superiormente.
Cavaleiro e forcado deram volta e foram aos médios.
Joaquim Bastinhas lidou então o sobrero, com o peso anunciado de 650 Kgs, preto listão e bisco de córnea, que não reagiu à ferragem, um guloso por terrenos de tábuas, onde escarvou.
O cavaleiro alentejano e a quadrilha bem se esforçaram pelo aparecimento dum fumo branco sempre ausente, quem sabe se pelo significado do dia…
Por assim ser, pouco havia a fazer – e aconteceu – ante a falta de qualidade do oponente.
José Maria Cortes, do grupo alentejano, consumou ao primeiro intento, com o toiro agora a empregar-se, pelo que, sozinho, deu volta e agradeceu por duas vezes nos médios e nos tércios, face à recusa do Bastinhas em desfrutar dos prémios.
Luís Rouxinol esteve superior logo na ferragem comprida, a mais difícil de todas, onde se começa a fazer a diferença, a esse nível, entre os artistas do grupo especial e os demais. Na verdade,
depois de se dobrar com o antagonista, apontou o primeiro da porta dos cavaleiros, bregou e deixou o toiro em sorte para cravar um ferro excelente porque o toiro acudiu e empregou-se na reunião e ainda um terceiro comprido, a partir da querença natural, com recarga do adversário.
Depois, o de Pegões teve que enfrentar a parte negativa do antagonista, distraído no quarto, com tendência para se atravessar no quinto, a acolher-se às tábuas depois, apenas permitindo um bonito violino no sexto, com perseguição.
Rodrigo Pietra, por Montemor, somente ficou à terceira tentativa, por culpa alheia e Ricardo Pedro evidenciou-se também no quite feito ao seu colega David Antunes.
Volta ao redondel, com saída aos médios, para cavaleiro e forcado.
A segunda parte do espectáculo, a cargo da juventude, abriu com Teles Bastos, a quem coube um toiro castanho, emorrilhado, andarilho mas cumpridor.
O da Torrinha andou sempre muito ligado ao cornúpeto, que entendeu perfeitamente e bregou e cravou como mandam os cânones.
A ferragem comprida ficou colocada, sendo o segundo, uma tira de belo desenho.
Nos curtos, que foram quatro, destaque para o quinto e sexto ferros.
O jovem artista, com um punhado de actuações de mão cheia na temporada anterior e que, dias antes, triunfara no toiro que lidou a sós em Salvaterra de Magos, segue em frente, prometendo muito neste dealbar do novo ano taurino.
O Aposento da Moita pegou à primeira vez por um dos seus novos elementos não identificado, já que os jornalistas foram remetidos para as bancadas e os altifalantes também resolveram gozar o feriado, findo o que cavaleiro e forcado deram volta e saíram aos médios.
Manuel Lupi foi o intérprete que se seguiu, dobrando-se de entrada e assustando-nos com duas escorregadelas; evidenciou-se pela colocação da ferragem e pelo remate de alguns deles, muito embora, aqui e além, tivesse pecado por velocidade algo excessiva.
Gonçalo Saúde, por Montemor, ficou da primeira vez e ambos deram volta e foram aos tércios.
Marcos Tenório fechou praça contra um adversário com o sentido próprio da idade, porquanto tinha cinco anos cumpridos, que esperava e se atravessava na altura da reunião.
A ferragem comprida ficou em seu sítio, o oponente foi sistematicamente desafiado, com a vantagem correspondente, as sortes foram iniciadas e levadas a cabo a partir dos mais diversos terrenos – em frente à porta dos cavaleiros, da querença natural, ao correr das tábuas – a brega mereceu nota alta, colocando o cornúpeto e ganhando a respectiva linha.
Por fim, realce também para o facto do cavaleiro ter lidado sempre com o mesmo corcel, à antiga usança, um animal com a moral necessária para sair por cima e seguir em frente, após os dois percalços que sofreu.
Daqui se saúda o jovem e valoroso ginete e se lhe lembra uma das virtudes da vida, a da brevidade, de que deverá lançar mão também nesta carreira que agora desponta e dela tirar os correspondentes dividendos… Quer-se com isto dizer que nem sempre adianta ir além da ferragem da ordem por evidente pressão da parte do público, onde tantas vezes nada se ganha em relação àquilo que se fizera, quando não mesmo se compromete o que de bom vinha de trás, para já não falar, como no caso concreto, nos riscos a assumir – e, efectivamente, assumidos – em cada intervenção, o mesmo é dizer que em cada sorte ou ferro.
João José colocou bem o toiro para a pega, executada à primeira e à barbela pelo
Aposento da Moita, em curto e com o hastado a reunir a ensarilhar.
E assim terminou uma jornada que teve fartos motivos de interesse, de acordo com os diversos estilos dos intervenientes, para satisfação dos aficionados e para gáudio dos anacletos também presentes…