Os intelectuais e a Festa
A recente publicação do livro “Homens que pegam toiros – em defesa de valores” – já anteriormente referido, que começa por impressionar pela importância e vastidão da Bibliografia consultada e utilizada como ferramenta de trabalho, trouxe à discussão o problema da relação entre os intelectuais e a Festa, num tempo em que se multiplicam os ataques por banda de despenteados mentais ou anti-taurinos, com especial incidência nas iniciativas legislativas desencadeadas no parlamento catalão com vista à abolição das corridas naquela região autónoma do País vizinho, o mesmo é dizer, numa altura em que urge contar espingardas para o confronto que se aproxima.
O adjectivo “intelectual” refere-se ao intelecto, significando este, inteligência, faculdade de compreender.
Assim, recordaremos hoje escritores da língua portuguesa, dos dois lados do Atlântico, que, nos seus trabalhos, se debruçaram sobre a Festa, “o mundo do toureio, a psicologia do diestro, as suas reacções na antecâmara da morte, na arena, na enfermaria, ou na aridez cintilante da glória”.
No escrupuloso acatamento do critério eleito pelo compilador, fazem hoje o passeio, hic et nunc, os nomes prestigiosos de João Roiz de Castel Branco, Nicolau Tolentino, Almeida Garrett, na circunstância, homenageando os nossos conterrâneos, Rebelo da Silva, Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão, o ilhavense Alexandre da Conceição, Marcelino Mesquita, Abel Botelho, Fialho de Almeida, Paula Nogueira, Teixeira Gomes, Trindade Coelho, Júlio Dantas, António Nobre, Augusto de Castro, Norberto de Araújo, Noel Teles, Sousa Costa, Mário Beirão, Mário Domingues, Augusto Casimiro, Carlos Queiroz, Azinhal Abelho, Vitorino Nemésio, Miguel Torga, Alves Redol, com minuciosos conhecimentos da técnica tauromáquica, ou não fosse ele um homem de Vila Franca de Xira, Fernando Reis, Bernardo Santareno, Miguel Urbano Rodrigues, Murilo Mendes e João Cabral de Melo Neto.
Todos eles, homens activamente cerebrais, para quem as penas do seu tempo não eram apenas objectos de decoração no estatismo das respectivas presenças em gabinetes de trabalho ou como adorno do mobiliário duma qualquer sala de visitas, se pronunciaram nos seus escritos, em prosa ou em verso, sobre “o toureio no seu contexto geográfico, histórico e económico, como facto social e artístico, através da sua projecção na literatura portuguesa”.
Páginas ricas de fundo e de forma, acrescenta-se, firmadas pelo prestígio de nomes sonantes do idioma de Camões.
E, se arranjarmos tradutor credenciado que verta para espanhol estas considerações, enviá-las-emos à Rainha Sofia que, pelos vistos, desconhecedora “do toiro alado das teogonias orientais e do lendário duelo de Teseu com o Minotauro”, também não assimilou ainda a simbiose da esmagadora maioria dos seus súbditos com a Festa Nacional, não obstante uma permanência no país vizinho que rondará as quatro dezenas de anos.
É que, também aqui, ocorre perguntar:
Tal como, em pretérita intervenção, que ora se aclara, chamámos à praça os toiros Vinhas lidados no Campo Pequeno a 9 de Junho de 1965, o que diria a Senhora Condessa de Barcelona, presença habitual em datas e corridas determinadas, se porventura pudesse ainda aceder às infelizes declarações agora atribuídas à senhora Sua nora?