O ENGANO
Segundo Paulo Caetano, “todo o toureio se baseia em fazer crer o touro que nada mais há que ele possa colher senão os enganos do toureiro: o capote, a muleta, a garupa ou o peito do cavalo.
Fazê-lo acreditar que o corpo do homem, por estar imóvel, não existe.
Torear es enganar sin mentir”.
Por assim ser, poder-se-ia conjecturar, por referência ao título seleccionado, que a nossa análise incidiria sobre qualquer dos instrumentos de que o toureiro se serve para burlar os toiros na execução das diversas sortes, a saber, o capote e a muleta ou até mesmo o vetusto lienzo, antigamente utilizado na parte da faena que precedia a sorte de matar. Mas não.
De facto, o mote foi dado pelos Vinhas lidados na Feira da Moita, tidos por à medida das exigências das figuras, cujo toureio é inexequível sem aqueles toiros, sendo o espectáculo tauromáquico, manifestação artística e não, luta de galos.
Assim, ficou-se a saber, sem rodeios, aquilo já desvendado no sussurro dos bastidores.
Por antecipação, é ainda o ginete de Almada quem responde a tão artificiosa construção:
“O ideal de touro bravo que procuramos hoje, substância da faena perfeita, é um animal completo e, ao mesmo tempo, dialéctico. Deverá ser ofensivo e proporcionar arte. Deverá inspirar a beleza e, simultaneamente, a emoção (…). Deverá transmitir agressividade e poderio (…)”.
Por sua vez, Domingo Ortega sentenciou:
A arte do toureio radica no perigo que o toiro tenha. Se se lhe tira este grande perigo, pelo menos esta é a impressão que dá àquele que está próximo dele, a arte de tourear não existe; será outra classe de arte, mas a beleza, a grandiosidade do toureio reside em que o toureiro perceba a impressão, ainda que se lhe sobreponha, de que aquilo não é brincadeira (…).
Razão tinha Ludovino Bacatum quando denunciava o cerco a que vinham a ser sujeitos os intemeratos defensores, por actos ou por palavras, do genuíno toureio a cavalo de que Portugal é a Pátria, nunca do rejoneio.
No dia em que a valorização taurina das populações lhes permita destrinçar os gatos servidos das lebres que o deveriam ser, as praças esgotadas passarão a ser inacessíveis miragens, pois sempre será preferível, por exemplo, ver espectáculos de exibição equestre. Com efeito,
a equitação de Luís Valença e seus discípulos é primorosa, assente na doma natural dos equídeos, sendo impensável perspectivar sangue nas barrigas dos corcéis ou a sua submissão por recurso ao artificial.
Certo que falta ali o toiro de lide e o significado da sua presença no antigo e singular combate entre a inteligência e a força bruta.
Mas o mesmo sucedeu na Daniel Nascimento – e demais recintos – onde só arremedos daquele, sem pingo de casta, permitiram e propiciam a imobilização do conjunto a uma distância de tal modo ínfima que, caso isso fosse possível, não deixaria de impressionar fortemente pela negativa os exemplares outrora existentes nas ganadarias donde promanam.