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_______________________Toiros XXI
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(Artigos de opinião de Manuel José Gomes Vaz Craveiro)
 




       
 
 
   

     

MIGUEL SOUSA TAVARES

O defeso desembarcou e assumiu a gestão taurina do Reino.
De facto e de direito.
Com efeito, para além dos festivais no último domingo de Alcochete e Arruda, nada se perfila no horizonte dos meses mais próximos.
E a tradicional corrida do Cartaxo fechou definitivamente a porta, já apenas entreaberta desde a feira de Vila Franca.
Seguir-se-ão autópsias à defunta temporada, reuniões em tertúlias e jornadas gastronómicas de final de época, para entrega de prémios ou de comemoração da data natalícia. Numa palavra, é a paragem habitual em toda a sua pujança. Ora,
assim como a lide equestre assenta na ligação cavalo-toiro e, na parte apeada, entre os diversos passes em que se desdobram as tandas respectivas, também cá fora, no redondel da Crítica, será de bom tom, quando possível, não perder de vista a realidade que nos rodeia, na sua vertente sempre tão expressiva que é a actualidade.
Quase sem intermitências e, por duas vezes, foi notícia recente dos órgãos de informação o Dr. Miguel Sousa Tavares.
Por associação de ideias lembrámos o seu segundo romance, “Rio das Flores”, trabalho que começa precisamente com a descrição da viagem dum jovem alentejano à setembrina feira sevilhana, vai para um século, impulsionada pela determinação paterna de assistência a uma corrida onde entravam “apenas” os colossos de Gelves e de Triana, com toiros de Santa Coloma.
Mais à frente, ainda que na primeira parte da obra, repartida por seiscentas e poucas páginas, o autor descreve o ambiente da cidade andaluza no lapso de tempo que precede os espectáculos, tecendo até ricas considerações sobre as actuações dos dois rivais, a que múltipla confusão entre os termos capote e muleta, por referência aos lances e passes executados com cada um deles, não retirou o interesse à sua leitura e até à disponibilidade do livro, que tão só a correspondente posse propicia.
O escritor vai até ao ponto de incluir episódios que, nem por serem conhecidos dos mais arreigados a tais detalhes, deixaram de justificar a sua divulgação.
É o caso do receoso Rafael “El Gallo” que, à saída de criticas diluvianas, observou um dia:
“As broncas leva-as o vento, mas as cornadas levo-as eu”.
Também de Belmonte, frequentador de terrenos proibidos, ao ponto de Guerrita aconselhar pressa a quem o quisesse ver tourear, porquanto não iria viver muito.
Não se cumpriu, felizmente, a negra profecia do retirado Califa, tendo o sevilhano atingido a terceira idade e deixado de viver voluntariamente, por indeclináveis exigências do seu coração, ao tempo, ainda irrequieto.
E, confrontado uma vez por Valle-Inclàn, escritor, dramaturgo, amigo e admirador, sobre a grandeza do seu toureio, a que só faltava a morte na arena, o genial artista retorquiu:
“Far-se-á o que se puder, Don Rámon…..”
Reajustadas as medidas de segurança que se impõem para evitar novo saque a um património literário, no plano da criação, sua propriedade, a aficion espera daquele intelectual novas incursões por onde, num confronto belo e, tantas vezes trágico, se entrecruzam toiros e toureiros.

     

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