A SOBREMESA
O País e a aficion foram brindados pela RTP com a transmissão, na passada quinta-feira, da última corrida formal realizada no Campo Pequeno.
Dirijo palavras de aplauso à ideia de fazer chegar até nós as diversas incidências da tourada, diferentemente do que sucedeu durante anos, em que um critério apertado, restritivo, apontava tão só para a cobertura da corrida anual realizada a favor da respectiva Casa do pessoal.
Pela justiça que é devida na apreciação de condutas e critérios alheios, assim como, há anos, sob o título Direito de Protesto, denunciámos também a existência naquela estação de uma política discriminatória, desigual em relação a outros eventos (desafios de futebol e corridas de automóveis), escrevemos agora uma palavra de apreço e saudação por aquilo que parece representar uma parcial inversão na via percorrida e um regresso a outros tempos e métodos, indo-se ao encontro da franja da população que gostosamente se revê neste espectáculo tradicional.
Destarte, o jantar taurino servido pelo primeiro canal ao longo da temporada, sem embargo da demora havida no acesso aos diversos pratos em que se decompôs, o que sempre quebra o ritmo que deve presidir às refeições no seu conjunto, culminou, na pretérita semana, com o serviço da sobremesa.
Foi esta confeccionada com diversificados ingredientes em que imperou a imaginação da empresa organizadora, já que o adiantado da época não permitia a mesma proveniência dos produtos oferecidos à degustação alheia.
Tudo foi decorrendo em tom agradável, mas sem que, perto do fim, se tivesse registado algo de abracadabrante.
Entretanto, salta à arena, para epílogo da função, um exemplar oriundo da herdade de Pégoras, flavo, olho de perdiz, reservon, que só acometia quando perspectivava a hipótese de colhida, por várias vezes imóvel em face das deambulações do conjunto, imponente nos seus anunciados 598 Kgs., que chegou à pega pouco menos do que inteiro.
Ao toque respectivo, transpõe as tábuas o grupo de Vila Franca, cujo momento alto de afirmação de identidade referido há oito dias será, em breve, explicitado.
Adianta-se dos companheiros para o desafio ao adversário um jovem moço de forcado, Márcio Francisco de seu nome, que, ainda no Colete Encarnado do último ano, interviera pelos juvenis locais na garraiada da Sardinha Assada e que, desde então, não mais parou de crescer.
Foi brutal e infrutífero o encontro com o mastodonte, o mesmo sucedendo na tentativa seguinte.
Ser forcado exige, além do mais, excelente preparação física, vigor, par de braços, coragem, técnica, valor e também uma enorme força interior.
Nada disso faltou na ocasião. Em conformidade, o terceiro intento logrou ser vitorioso, com o grupo a imobilizar o antagonista. Assim, ao bolo no final da refeição o valoroso pegador colocou a cereja que estava em falta e, entrada já a madrugada, a digestão pôde incidir também sobre o enriquecedor aditamento.