OS CAVALOS DE TOUREIO
Foi notícia recente o propósito de regresso às arenas do cavaleiro José Soudo que, para tanto, está a ultimar o indispensável projecto de reposição da quadra.
E, porque não há toureio equestre sem o concurso de montadas portadoras de qualidade que possam ser postas ao serviço daquela modalidade, bem como do necessário grau de ensino, recordamos Mestre Baptista que, à saída duma negativa actuação no saudoso Campo Pequeno, não obstante o adiantado da temporada respectiva, cancelou, pura e simplesmente, o que ainda restava dela, para o que também concorreu – e de que maneira! – a perda do Falcão, indiscutivelmente, cavalo de época, anteriormente acontecida.
O toureio é a arte de lidar toiros, de acordo com normas de há muito fixadas, em ordem a lograr-se o seu domínio – definição essa que tanto aproveita à vertente a cavalo, como à parte apeada, uma vez que o toureio é um só, na dobra dos adversários, na sua colocação em sorte, no duplo aspecto da eleição de terrenos e das distâncias, no desafio por intermédio do cite, no controle da arrancada, no mando e no temple da investida. Porém,
mesmo que a pólvora estivesse ainda por descobrir, facilmente se intuiria que tudo isso ganha outra complexidade quando levado a cabo via colaboração do irracional que o cavalo é, em que, por isso, não bastam a competência, o querer e o valor do ginete, diferentemente do que sucede quando o enfrentamento passa tão só pelo recurso ao percal, à flanela ou ao estoque. Deste modo,
a sabedoria e a arte do cavaleiro tauromáquico serão, ainda assim, insuficientes, se e quando desacompanhadas de algumas montadas com aptidão para a prática daquela modalidade, por sua vez, complementarizada por adequado processo de aprendizagem e aquisição de conhecimentos para defrontar o antagonista.
E, as mais das vezes, nas bancadas, passam ao lado dos utentes a evolução do conjunto pelo redondel, a brega do cornúpeto, a sua colocação em sorte, o chamamento, o mando na arrancada ou na abordagem de oponentes tardos, a reunião, a consumação da sorte e o seu remate, como se a ligação cavalo-cavaleiro fosse a coisa mais natural e não tivesse, atrás de si, paciente e aturado trabalho de casa, na circunstância, de picadeiro.
Na época, pois, a que acima fizemos referência, volvidos que são já 42 anos, não restava outra alternativa ao de S. Marcos do Campo que não fosse parar para refazer e assim continuar bem de frente com os toiros, que, de outra forma, não concebia o toureio.
Daí que seja de aplaudir o anunciado cuidado com que o cavaleiro de Cuba prepara a hora do regresso, mormente no aspecto chave dos cavalos, agora que, como sempre sucede toda a vez que há hiatos, é obrigado a partir de novo do zero, tal como se estivesse no início de carreira.