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_______________________Toiros XXI
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(Artigos de opinião de Manuel José Gomes Vaz Craveiro)
 




       
 
 
   

     

CARTA A UM AVÔ

Querido avô:
Na marcha avassaladora do Tempo a caminho da quadra natalícia, aqui me tens com as notícias trazidas pelo desenrolar do quotidiano.
No campo tauromáquico, não podiam ser mais revoltantes.
A praça de Viana do Castelo, que te era familiar, está prestes a cessar funções, depois da sua inauguração em 1941, quase exclusivamente para que o programa das festas da Senhora da Agonia pudesse incluir a realização de uma ou duas corridas de toiros, de aspecto muito alegre e capacidade para cerca de 5000 espectadores, o que se revelou insuficiente depois que o espectáculo ganhou verdadeira expressão turística.
Acabo de saber que a edilidade local a vai adquirir, ainda por cima, por preço simbólico e para um escopo que passa ao lado do que presidiu à sua construção.
Imagino-te a perspectivar lapso meu ao não referir que aquela irá ser convertida em Pavilhão Multiusos, à semelhança de Elvas e de Évora e do projectado para o Redondo e Santarém.
Mas não é assim, pois a praça, como tal, será desactivada.
Em linguagem popular, “vai-se de cavalo para burro”, volta-se a andar à vela, como nos tempos dinizinos de frei Januário dos Anjos nos Fidalgos da Casa Mourisca.
Por cá, a Tauromaquia é parente afastada e, ainda por cima, pobre da família governativa que come à mesa do Orçamento de Estado e que, no intervalo das suas dispepsias, acata, servil, as ordens dos patrões do espaço onde outrora floresceu a Europa das Pátrias.
Imagino a perplexidade com que avalias a falta de respeito pela memória de quem mandou construir o condenado recinto e de sucessivos e eventuais donos, dos empresários que o levaram, do público amante do espectáculo, em cujo seio estarão votantes da equipa depredadora, que agora “corresponde” à manifestação de confiança, apunhalando pelas costas os bem intencionados eleitores.
Partiste para a viagem sem retorno a 29 de Janeiro de 1952.
No primeiro dos dois volumes de “Costumes e Gente de Ílhavo” que escreveste em homenagem ao burgo que nos viu nascer, exaraste:
“À minha Terra, que servi e amei com muito carinho e dedicação”.
Porque assim foi, despeço-me com a recordação de que, acompanhando-te à última morada, na inocência despreocupada dos meus oito anos incompletos, ainda não esqueci que, à passagem do féretro e da multidão que o envolvia, todas as casas comerciais encerraram as suas portas, (com excepção de duas), em sinal de luto pelo desaparecimento do autor da vultuosa obra deixada, no respeito, sempre afirmado, pelo património recebido e transmitido, respectivamente, no inicio e no final dum consulado autárquico que se estendeu por 25 anos.
Esse não será, seguramente, o destino reservado ao soba vianense e sua equipa.

     

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