O PITON CONTRÁRIO
O defeso já tem passagem marcada para chegar até nós. Com ele virão também o debate das ideias, o confronto de opiniões, a invocação de argumentos e a exibição de galões.
Em tal matéria participarão os aficionados de agora que assim o entenderem por conveniente e também aqueles que estão já fisicamente ausentes mas por quem falará a respectiva obra literário-taurina.
“Simão da Veiga – Um nome e duas saudades” é um livro daquela especialidade, que retrata os cavaleiros tauromáquicos com esse nome, escrito por um filho e irmão dos homenageados, a saber, Luís Fernando da Veiga, por sua vez, pai de Luís Miguel da Veiga.
Oriundo, como é, de um ilustre membro de tão distinta família, não admira que se trate do legado de obra valiosa, cuja aquisição, leitura e estudo, vivamente recomendamos aos leitores.
Voltaremos, este Inverno, a falar de um tal trabalho, pelo autor editado em 1965. Por ora, ficamos com a sua opinião sobre o piton contrário, tema de acuidade dificilmente exagerável, em face das mais recentes opções de uma primeiríssima figura do naipe da cavalaria portuguesa. Citemos então:
“(…) quando os toiros ainda não tinham piton contrário, nem permitiam pelo seu nervo e pelo seu poder essa farsa ignóbil do toureio equestre, em que o mais enganado é o público e logo a seguir o apático e reduzido toiro dos nossos dias, quando não também o cavalo e o cavaleiro conjuntamente (…).
(…) a entrada pelo piton contrário, contra o que me insurjo acima, nem por sombras tem o mérito do quiebro a pé, em que o toureiro aguenta parado a investida do toiro, com a coragem suficiente para o ver chegar, quebrando-lhe então a viagem com o engano do próprio corpo. A cavalo, não é possível fazer isto, não percebendo como já pude ouvir esta comparação …sem comparação. Razoavelmente há que condenar essa falsidade do toureio montado que mesmo quando sai pelo melhor, prescinde de qualquer respeito às regras, porque leva o cavalo a atravessar-se no terreno do toiro e o ferro, sempre o cavaleiro aponta a cilhas e até a garupa passada … e não pode ser de outra maneira. Por mais que os ignorantes aplaudam, aqui não há domínio algum da sorte, nem se crava ao estribo, nem se cumpre absolutamente nada do que está preceituado”.
Por último, legendando uma admirável fotografia, diz:
“Mestre Simão da Veiga Júnior, rematando nos médios uma sorte de frente, sem truques de piton contrário, sem perder a cara ao inimigo e cravando ao estribo, com domínio absoluto do lance.
Assim, existe realmente uma verdade na fastidiosamente apregoada sorte de caras ou de frente”.
Para que conste, acrescentamos nós e também à consideração superior …